Madrugada

Maio 20, 2008

00h27.
Solilóquios infantis olhando para o celular.
Todo mundo vive dizendo que devia falar com ele.
Todo mundo diz que nunca iremos nos entender enquanto não disser que o amo.
Vou ligar para ele.
Não. Não vou.
Mas…
Ah, vou sim.
Não.
Nada disso, contenha-se!
Será que ele já chegou da faculdade?
Será que vai me atender bem?
Não.
Não vou ligar e ponto.
*pega o celular e disca*
NÃO!
Pára!
*apaga tudo*
Ah, quer saber…
Dane-se.
*aperta o número da discagem rápida e arrisca*

- Alô.
*MEU DEUS! A VOZ DELE!*
Súbito arrependimento.
Agora fala, né, seu número já apareceu lá.
Sua besta, eu disse pra não ligar.
- Alô???
*FALA LOGO!*
- A-a lô? Caio?
- Oi?
- Sou eu, Ariane. Só liguei mesmo pra dizer que ainda te amo. Eu sei que é tarde e não parece fazer sentido, ma…
- Nn…
*silêncio profundo de alguns segundos*
- … mas eu precisava dizer isso. Já disse. É tarde. Vou te deixar descansar. Obrigada. Bei…
- Calma. Peraí. Posso?
- Hm?
- Não esperava… É… Acabar nisso, não. Não de novo. Vamos nos ver amanhã? Te encontro na saída do trabalho…
- Tem certeza? Por mim tudo bem.
- Tudo bem, então. Beijo.
- Beijo, boa noite…
- Ariane?
- Eu também.
- O quê?
- Eu também te amo
tu tu tu tu tu tu tu tu tu…

Esfrego os olhos, atônita.
Como assim, isso realmente aconteceu?
O número está aqui, gravado na memória do celular…
Isso não garante nada.
Já ameaçou ligar e não esperou chamar várias vezes.
Não pode ser.
Bobagem.
Cochilei.
Isso é sono.
Sono, isso mesmo.
(Sono não devia ser – não pregou os olhos até a hora de levantar.)

Arrumou-se como todos os dias. Cinco e meia, saiu feito um zumbi, passou o dia num mundo paralelo, não rendeu nada na bendita redação e até preocupação gerou nos colegas de trabalho.
- Você é sempre tão criativa, tão ligada!
- Aconteceu alguma coisa?
- Precisa de ajuda?
- Está doente?
- Só não dormi direito.
(Era só o que conseguia responder.)
Só conversava consigo mesma.
Debateu o dia todo com seu interior.
Odiava-se.
Era tudo sua imaginação, mais uma vez.
E mais uma.
Só se deu conta do que estava acontecendo quando, ao abrir a porta do carro, já na saída do serviço, sentiu a mão dele em seus ombros.
Dois adultos com as bochechas vermelhas, sorrindo um para o outro sem saber o que dizer.
Duas criancinhas.
Apaixonados.
Ali estavam.
As crianças que um dia se apaixonaram.
Os adolescentes que negaram até à última consequencia seu amor.
Os adultos, finalmente decididos.
Ali, frente a frente.
Podendo dar um rumo a tudo aquilo.
Tanto a dizer…

Mas nenhum falou.
Olharam-se fixamente cerca de dois minutos.
Abraçaram-se.
E tudo foi dito naquele gesto.
A vida que podia ter sido e não foi.
- Não quero mais perder tempo.
Qual dos dois disse primeiro, não vem ao caso.
Agora seria, os olhares disseram um ao outro.
- Não acredito que liguei!
E o beijo completou tudo.

(Quem me dera que na vida real fosse assim! Na minha, a história parou no 14º parágrafo…)

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